terça-feira, 14 de maio de 2013

Seu Seleno


Seu Seleno

     O assunto mais recorrente na sala dos professores, durante os intervalos principalmente, é o comportamento dos alunos. Fala-se sobre indisciplina, falta de educação e desinteresse discentes. Culpabiliza-se, geralmente, a “família”, instituição julgada como entidade metafísica, universal, onisciente e onipotente. Atribui-se a ela, ou melhor, à “recente” perda de seus poderes divinos, o fracasso dos alunos, tanto do ponto de vista pedagógico, quanto do comportamental. Contudo esta não é a única explicação. Também os alunos, seres dissimulados, senhores de si, indivíduos maduros e responsáveis, que estão na escola sei lá fazendo o que, diante de tal nível de desenvolvimento, são responsabilizados pelo seu fracasso. Em resumo, a lógica do sucesso e do fracasso impera no árido solo da pedagogia brasileira. 
Mas este não era o caso da Escola Estadual Prof. Judas Iscariotes de Oliveira. Pelo menos não nas últimas semanas. A recente chegada de seu Seleno, funcionário da Diretoria de Ensino designado para a função de Agente de Organização Escolar, mexia com os instintos especulativos do corpo docente. Os motivos: seu Seleno não tinha “perfil” para trabalhar como inspetor de alunos. 
Chegaram a essa conclusão logo em sua primeira semana de trabalho. Nos três primeiros dias, seu Seleno chegou atrasado. Deveria apresentar-se na escola às 6:40, arrumar-se rapidamente, e abrir o portão para a entrada dos alunos, às 6:50. No primeiro dia chegou às 7 horas, atrasando a entrada. No segundo dia, conseguiu chegar às 6:50, o que também descumpria as ordens da diretora. No terceiro, voltou a chegar às 7 horas.
A diretora, insatisfeita com a situação, sabia que se seu Seleno não abrisse o portão no horário, os alunos entrariam atrasados, o que prejudicaria a primeira aula da manhã. A escola não dispunha de outro funcionário para cumprir essa função, seu Seleno vinha, especificamente, para ficar no lugar de dona Aurora, antiga inspetora que acabara de se aposentar. Assim, a diretora chamou o recém-chegado para uma séria conversa. Após a exposição dos fatos e de suas conseqüências, que seu Seleno mal ouviu, pois pensava no jogo de futebol que ocorreria naquela quarta, à noite, a fina senhora exclamou: – Portanto, se você voltar a se atrasar, eu vou até a Diretoria de Ensino pedir a cessação da sua designação! – A rispidez da voz e a fúria no olhar da diretora trouxeram seu Seleno de volta à realidade. Não se explicou, apenas respondeu: - Dona Diretora, isso não vai voltar a acontecer!
Seu Seleno era lento no andar, seus pés sexagenários doíam quando caminhava, atrapalhando a agilidade que outrora tivera. Gabava-se, inclusive, de ter sido “jogador” de um clube do interior de São Paulo na juventude. Um “beque dos bons” dizia, que teria até mesmo enfrentado Pelé num jogo válido pelo Campeonato Paulista, no início dos anos 70. Além da dor, e das míticas histórias contadas ao colegas de bar, havia sua condição financeira precária e o descaso consigo próprio. Ambos impediam que o homem procurasse um médico para examiná-lo. Morava só, numa modesta casinha na periferia de São Paulo, há cerca de três quilômetros da escola em questão. Não tinha amigos, apenas “conhecidos” na região.
  Decidiu que na manhã seguinte pegaria um ônibus ao invés de caminhar, mesmo que isso ocasionasse importante diferença em seus rendimentos mensais. Mas ponderou: “melhor ir de ônibus e continuar trabalhando, do que perder o trabalho e ficar mais fodido ainda de grana. É, melhor mesmo...”. Por fim, passou a chegar no horário, atrasando-se mais raramente.
Os atrasos não eram os únicos obstáculos de seu Seleno na função. Todos consideravam-no figura repugnante. Primeiro pelo aspecto físico: um homem de sessenta e poucos anos, banguela, careca, de olhos ligeiramente esbugalhados e volumosa barriga. A isso, acrescente-se roupas sujas, fedidas e rasgadas, como uma camisa do Corinthians comprada provavelmente num camelô na década de 90, e o odor quase natural de cachaça que exalava, gerado não só pelas doses do desjejum, como também pelos grandes goles ingeridos à noite, antes de cair no sono. A idade, o cansaço e sobretudo as noites de pouco sono davam-lhe grandes olheiras, que contribuíam para sua feiúra.
Além do aspecto, também julgavam-lhe mal pelo modo peculiar no trato com as pessoas. Por exemplo, aos alunos que dele zombavam, respondia com - Vai pra puta que pariu, filho de uma quenga véia! – A frase, repetida incansavelmente com voz ligeiramente rouca e vacilante, revelava um estado crescente de senilidade, o que divertia os alunos mais sádicos. Estes, engajavam-se em criar novos apelidos para o velho. – Esse é da hora, rárárá, o véio doidera vai ficar muito puto!
Tratava distintamente professores e professoras. Com os homens, esforçava-se para ser amigável, contando-lhes piadas e “causos” antigos. Com as professoras, era galante e gentil, - É assim que a gente tratava as mulheres antigamente – contava aos colegas do sexo masculino. Por vezes, e preferencialmente às professoras mais velhas, soltava alguns elogios, que eram imediatamente rechaçados com olhares de reprovação, “Se toca, velho fedido”, pensavam algumas.
Mas seu Seleno não tinha intenção de amizade, amor ou sexo. Seguia um protocolo de educação básica que aprendera há algumas dezenas de anos. A escolha pelas mais velhas, por exemplo, baseava-se na crença de que elas entenderiam este protocolo. Tinha uma mente antiga, valores e costumes antigos.
Não se incomodava com os juízos negativos dos colegas de trabalho. A propósito, fechara-se de tal modo para essa espécie de crítica que elas simplesmente pareciam não existir. Era, por esse e outros motivos, ser extremamente alegre, sorridente. Sempre a cantarolar melodias de Nelson Gonçalves e Ataulfo Alves. Divertia a criançada da escola dançando comicamente enquanto entoava as canções. Não partilhava daquilo que costumeiramente chamamos de “bom senso”, ou ainda, “senso de ridículo”. Há tempos abandonou a capacidade de se auto-envergonhar, conquista potencializada pelo alcoolismo. 
Como dito acima, transformou-o em pessoa mais comentada na sala dos professores, durante o intervalo. As professoras, em especial, riam de seu jeito extravagante, deploravam seu fedor, suas roupas sujas e rasgadas, reclamavam de seus galanteios e dos xingamentos proferidos aos alunos. Especulavam se não tinha esposa, se morava sozinho, se tinha parentes próximos, enfim, algo que se possa chamar de família. - Como uma pessoa chega a tal estágio? – Indaga uma. – Excesso de pinga – responde outra.
Os professores são mais complacentes. Há alguns que até simpatizam com seu Seleno, mas não manifestam publicamente esse afeto. Comentam suas piadas, seus jargões, seus “causos”.  Chegaram inclusive a pesquisar nos sites futebolísticos da internet, se seu Seleno fora realmente jogador de futebol. Nada encontraram.
O que ninguém sabe, ou desconfia, é que Seleno foi casado, e teve um filha, falecida aos 10 anos, vítima de um tumor no cérebro. A perda da garota, considerada por tempos, pelo pai, alegria e razão de sua vida, deixou uma marca incurável em sua alma. Tentou afogar essa perda com o álcool. Nada feito. Perdeu a esposa, sucessivos empregos, a dignidade. Por anos, viveu nas ruas, a esmo, perambulando. Tateava um novo sentido para sua mal-tratada existência, mas esbarrava sempre na memória da filha perdida. Abandonado pelos amigos, pelos poucos parentes próximos, seu Seleno passou a mendigar, ou a fazer serviços braçais em troca de cachaça. Pouco comia. Sempre se embriagava. Mas a filha morta nunca voltava. Por fim, entendeu que a morte é eterna.
Aos poucos e muito lentamente, se refez. Tijolo por tijolo, construiu uma poderosa muralha mental contra tudo que lhe era nocivo. Nada mais o afetava, a não ser as crianças, que de um modo geral, encarnavam a figura da filha. Nunca foi capaz de se imunizar contra os choros e os sorrisos, os insultos e elogios, as tristezas e alegrias das crianças. Através delas, sentia-se ligado à querida filha perdida. 
Seu Seleno se reergueu. Demorou, mas acabou por encontrar paz interior e a vontade de seguir a vida. Decidiu que até o fim trabalharia em escolas, para estar sempre próximo às crianças. Conseguiu trabalho numa Diretoria de Ensino, contratado como ajudante de serviços gerais. Prestava serviços de manutenção dentro das escolas. Durante alguns anos, desempenhou bem a função. Até que prestou concurso para agente de organização escolar. Ficou mal-classificado, mas acabou sendo chamado, devido ao excesso de vagas e à rotatividade das pessoas no cargo, talvez devido à natureza do trabalho (vigiar os alunos) e ao salário miserável. 
Seu Seleno passou por diversas escolas, mas seu temperamento desleixado não o permitia ficar por muito tempo em nenhuma delas. As pessoas se irritavam, e ele era “devolvido” para a Diretoria de Ensino, que o empurrava para alguma outra escola que reclamava por falta de funcionários, fato bastante comum nas escolas paulistas. Acabou passando um tempo mais prolongado nessa escola, pois, ainda que fosse desmazelado, cumpria sua função.
Nunca esqueceu sua filha, logicamente, mas voltou a ser o espírito alegre de tempos antigos. E apesar dos pesares, é possivelmente a pessoa mais feliz com seu trabalho lá. O baixo salário não é tão relevante. E ao contrário dos professores, dos demais funcionários da escola, da direção e até mesmo dos próprios alunos, sente prazer infindável em contemplar o sorriso das crianças, que, como pensa, é “a coisa mais pura e bonita do universo”. É o que lhe vale. 

3 comentários:

  1. Sensacional, Dr! Grande idéia, grande texto, grande blog!

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  2. Impressionante a capacidade do autor em unir nesta crônica o contexto da situação das Escolas e o o particular. Todos pontos se cruzam e fundamentam a reflexão. Parabéns.

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  3. Poxa fiquei de ler esses contos a alguns anos e com esse aqui eu vejo o q eu quase perdi kk gostei mt mesmo professor

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