quarta-feira, 22 de maio de 2013

Num futuro próximo...


Num futuro próximo... 

Após registrar a presença de seus alunos em seu diário de classe, o professor-filósofo pediu aos jovens que desligassem e guardassem seus aparelhos celulares em suas mochilas. Alguns poucos o fizeram imediatamente. Outros, a maioria, o fizeram somente depois de serem persuadidos pela argumentação do professor: a simples presença do aparelho sobre a mesa desvia a atenção dos alunos. Os demais, pouquíssimos, precisaram ser ameaçados: “vou te mandar para a diretoria”, ou ainda, “vou pegar o seu celular que só será devolvido a um de seus pais”.
Finalmente a aula foi iniciada. O professor-filósofo retoma a discussão das últimas semanas “a natureza humana segundo Jean-Jacques Rousseau”. Dois minutos depois, nota que um aluno já mexe em seu aparelho celular. O docente decide não agir e esperar para ver o comportamento dos demais. Aos poucos, com em uma epidemia, as mãos dos estudantes são tomadas pelos aparelhos. Em menos de dez minutos, a grande maioria é contaminada.
O professor, então, decide romper seu silêncio e se pronuncia, movido por um sentimento de obrigação: - Vocês realmente não conseguem, não é? Não conseguem ficar dez minutos longe desse miserável aparelho eletrônico?
Há um silêncio imediato, seguido de olhares medrosos. Os alunos sabem que desobedeceram a uma ordem e que podem ser punidos.
Um adendo. Não se assustem, caros leitores. Estes alunos estudam numa escola severa, onde as leis, normas e regras são seguidas com extremo rigor, às vezes até desnecessário. Lá as regras não são apenas um conjunto de palavras impressas numa folha de papel, afixadas em uma das paredes da instituição. Lá regra é regra. Seu não cumprimento é penalizado. Nesta escola, aluno bom é aluno disciplinado.  Dessa forma, os alunos não têm a sensação de que podem tudo, ao contrário. Revoltam-se por não poder nada. Escola certamente anacrônica. Noutra ocasião desenvolverei mais o assunto.
O professor-filósofo tem níveis baixos de obsessão por punição. Curioso por natureza, está mais interessado, por ora, em descobrir os motivos da dependência de seus alunos pelos tais aparelhos de telefone celular. Indaga-os e ouve as mais diversas respostas: “porque celular é legal”, “porque é importante para nos comunicarmos com os outros”, “porque o celular tem várias funções: dá pra ouvir música, assistir vídeos, entrar na internet, mandar mensagens, é da hora”, “porque se minha mãe precisa falar comigo, ela me liga”, entre outras.
Como supunha, nenhum aluno cita as funções de pesquisa, de busca por informações e conhecimento que um aparelho dessa espécie possui. Tampouco é citada sua função de calculadora, que poderia ser valiosa nas aulas de matemática ou física. As respostas restringem-se às funções de comunicação, mas, sobretudo, de entretenimento.
Embora reconheça a importância do lazer na vida dos adolescentes, isso ainda não explica tamanha dependência de um aparelho eletrônico. Por alguns instantes, o professor-filósofo mergulha em pensamentos: “por que tamanha obsessão por um celular? Serão as luzes piscantes, que hipnotizam? Ou a tela, que deve ter algum brilho especial que vicia, será possível? Será a câmera fotográfica? Ou a sensação de pertencimento ao grupo, gerada pelo aparelho? Ou ainda o status: eu tenho um aparelho, sou legal. Quanto mais caro meu celular, mais legal eu sou? Ou quem sabe a intimidade com aparelhos dessa espécie, essa geração passou mais tempo com um celular do que, provavelmente, com seus pais. Será isso?”
Eis que de repente, atordoado por suas meditações e sem pensar nas conseqüências de suas palavras, o mestre profere a infausta afirmação: - Eu não tenho um aparelho celular.
Breves segundos de silêncio. Os alunos se entreolham, apavorados, terrificados. Surge um ânsia instantânea, coletiva:  “Como?? Como pode?”, pensam, uniformemente.
A quem não presenciou a cena é praticamente impossível descrever o que se sucedeu. Revolta, gritos, caos, desordem, indignação. Harmonicamente, pensavam: “como pôde a natureza ter engendrado ser tão excêntrico? Não há mais limites para a extravagância humana? Como ousa, uma pessoa, um ser humano de carne e osso, sem celular? Impossível.”
E o professor, pego de surpresa, tenta se explicar. Utiliza seus melhores argumentos, mas ninguém o ouve. Vocifera, esbraveja, e quanto mais tenta, mais ensandecida fica a turba. Por fim, bate o sinal. A aula termina. Sai da sala aliviado por ainda estar vivo.
No caminho para casa, os rostos de repulsa voltavam-lhe à mente, a todo instante. Não conseguia esquecê-los. Brota-lhe, de repente, uma estranha ideia: escrever os seus argumentos contrários ao celular e lê-los para a turma na próxima aula. “Vou mostrar para essa molecada que a vida é muito mais que um aparelho eletrônico”, pensou.
Assim, elaborou uma lista com suas razões, intitulada: 27 motivos para não se ter um celular. Fez o melhor que pôde, utilizando a linguagem dos jovens para que o entendessem. E na semana seguinte, quando retornou àquela turma, retomou a discussão. Sabichão, sacou de sua pasta seu digníssimo texto, que leu em voz alta para os jovens.

27 motivos para não se ter um celular.

1º Você não gastará dinheiro com um aparelho. E não gastará dinheiro com outro aparelho daqui há alguns meses, quando o seu atual quebrar ou se tornar ultrapassado.
2º Você não gastará dinheiro com planos mirabolantes das empresas telefônicas.
3º Você não contribuirá com as empresas telefônicas, claramente desonestas, que prometem planos mirabolantes e não cumprem.
4º Você não ficará nervoso após horas e horas de espera tentando cancelar seus planos mirabolantes.
5º Você não terá que desligar o seu celular ao entrar no cinema, teatro, etc..
6º Você não atrapalhará as pessoas no cinema, teatro, etc, por ter se esquecido de desligar o seu celular.
7º Você não atrapalhará a aula atendendo aquela ligação “importantíssima”.
8º Você não incomodará o sossego de ninguém no transporte público por discutir a relação com seu/sua amado(a) via celular.
9º Você não incomodará ninguém no transporte público, ou mesmo em outros espaços públicos, ouvindo no alto falante de seu celular aquela música que só você acha legal.
10º Nunca ninguém ficará zangado com você pelo fato de você ter esquecido o celular desligado.
11º Você nunca precisará procurar um lugar para recarregar a bateria do seu celular.
12º Você não precisará procurar um lugar para por crédito no seu celular, nem deixará as pessoas da fila da lotérica, da farmácia, da PQP nervosas pela demora na compra dos benditos créditos de celular.
13º Você nunca colocará a sua vida, e as de outras pessoas, em risco, ao dirigir falando no celular, ou dirigir escrevendo mensagens SMS.
14º Você nunca ficará preocupado se alguém “está de olho” no seu celular “novinho”.
15º Você nunca ficará preocupado em perder seu celular “novinho”.
16º Você não sofrerá assaltos por conta do seu celular. Sua vida não estará em risco por conta desse ridículo aparelho eletrônico.
17º Você nunca ficará desesperado se o seu aparelho for furtado ou perdido.
18º Você nunca ficará desesperado por ter perdido TODOS os milhares de contatos da agenda do seu celular roubado ou perdido.
19º Você nunca vai pisar num cocô de cachorro porque estava andando enquanto escrevia  uma mensagem SMS (e nenhum outro acidente idiota deste tipo, vai dizer que não acontece?).
20º Você não ficará ansioso se a bateria do seu celular estiver acabando e você estiver esperando uma ligação importante.
21º Você nunca se julgará um “idiota” por ter ido viajar e ter esquecido o carregador da bateria do seu celular.
22º Você não estará sempre “disponível”, isto é, ligado o tempo todo ao resto do mundo (privacidade é bom de vez em quando).
23º Você nunca se sentirá um “otário” por ter comprado um aparelho que não funciona conforme o prometido. Nem vai perder tempo tentando aprender a utilizar aquelas funções mirabolantes do seu celular “novinho”.
24º Você nunca irá usar seu celular para tirar aquelas fotos ridículas na frente do espelho, em que se faz biquinho, ou qualquer outro tipo de pose idiota, que só você acha sexy.
25º Você nunca irá deixar a pessoa com quem você está conversando te esperando enquanto você responde aquele SMS “importantíssimo”.
26º Você nunca deixará de prestar atenção em algo importante por estar com os olhos grudados no seu celular.
27º Você nunca se viciará no seu celular, ou nas tranqueiras coloridas e barulhentas que ele pode te proporcionar. Enfim, você terá mais tempo para viver.

Ao final da leitura, a maioria dos alunos estava com cara de tédio. Alguns bocejavam, outros checavam seu celular. Outros olhavam para o vazio, pensando em como seria estar em casa, desfrutando de sua cama e de seu travesseiro. Apenas uma garota, uma quieta porém perspicaz menina da primeira fila, olhava com astúcia para o mestre.
A princípio, o professor-filósofo não entendeu a reação da classe. Tinha certeza que seu texto criaria novo tumulto, revoltas ainda mais tempestuosas. Ele até tentou estimular a turma, provocando-os com novos questionamentos sobre o assunto. Hoje estava pronto para briga, tinha certeza que ninguém o venceria. Em vão. “Venceu” por W.O.. 
No caminho de volta para casa, pensando em toda a situação, concluiu: “essa é a geração do tédio, e não do celular. Não se motivam por ideias, não se apegam racionalmente às coisas, são basicamente seres pulsionais. Vão da euforia à indiferença, da inação à hiperatividade velozmente. Mas nada lhes pertence. Surpreendem-se com o diferente, é verdade, revoltam-se até. Mas é tudo instintivo, tudo efêmero e descartável. Só o tédio lhes é visceral.” Então, lembrou do rosto da garota quieta e perspicaz. Seu olhar tinha um brilho de inconformidade, uma luz que irradiava discórdia, ainda que contidamente. Por fim, o professor-filósofo sorriu. “Nem tudo está perdido”.

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