Num futuro próximo...
Após registrar a presença de seus alunos em seu
diário de classe, o professor-filósofo pediu aos jovens que desligassem e
guardassem seus aparelhos celulares em suas mochilas. Alguns poucos o fizeram
imediatamente. Outros, a maioria, o fizeram somente depois de serem persuadidos
pela argumentação do professor: a simples presença do aparelho sobre a mesa
desvia a atenção dos alunos. Os demais, pouquíssimos, precisaram ser ameaçados:
“vou te mandar para a diretoria”, ou ainda, “vou pegar o seu celular que só
será devolvido a um de seus pais”.
Finalmente a aula foi iniciada. O professor-filósofo retoma a discussão
das últimas semanas “a natureza humana segundo Jean-Jacques Rousseau”. Dois
minutos depois, nota que um aluno já mexe em seu aparelho celular. O docente
decide não agir e esperar para ver o comportamento dos demais. Aos poucos, com
em uma epidemia, as mãos dos estudantes são tomadas pelos aparelhos. Em menos
de dez minutos, a grande maioria é contaminada.
O professor, então, decide romper seu silêncio e se pronuncia, movido por
um sentimento de obrigação: - Vocês realmente não conseguem, não é? Não
conseguem ficar dez minutos longe desse miserável aparelho eletrônico?
Há um silêncio imediato, seguido de olhares medrosos. Os alunos sabem que
desobedeceram a uma ordem e que podem ser punidos.
Um adendo. Não se assustem, caros leitores. Estes alunos estudam numa
escola severa, onde as leis, normas e regras são seguidas com extremo rigor, às
vezes até desnecessário. Lá as regras não são apenas um conjunto de palavras
impressas numa folha de papel, afixadas em uma das paredes da instituição. Lá
regra é regra. Seu não cumprimento é penalizado. Nesta escola, aluno bom é
aluno disciplinado. Dessa forma, os
alunos não têm a sensação de que podem tudo, ao contrário. Revoltam-se por não
poder nada. Escola certamente anacrônica. Noutra ocasião desenvolverei mais o
assunto.
O professor-filósofo tem níveis baixos de obsessão por punição. Curioso
por natureza, está mais interessado, por ora, em descobrir os motivos da dependência de
seus alunos pelos tais aparelhos de telefone celular. Indaga-os e ouve as mais
diversas respostas: “porque celular é legal”, “porque é importante para nos
comunicarmos com os outros”, “porque o celular tem várias funções: dá pra ouvir
música, assistir vídeos, entrar na internet, mandar mensagens, é da hora”,
“porque se minha mãe precisa falar comigo, ela me liga”, entre outras.
Como supunha, nenhum aluno cita as funções de pesquisa, de busca por
informações e conhecimento que um aparelho dessa espécie possui. Tampouco é
citada sua função de calculadora, que poderia ser valiosa nas aulas de
matemática ou física. As respostas restringem-se às funções de comunicação,
mas, sobretudo, de entretenimento.
Embora reconheça a importância do lazer na vida dos
adolescentes, isso ainda não explica tamanha dependência de um aparelho
eletrônico. Por alguns instantes, o professor-filósofo mergulha em pensamentos:
“por que tamanha obsessão por um celular? Serão as luzes piscantes, que
hipnotizam? Ou a tela, que deve ter algum brilho especial que vicia, será
possível? Será a câmera fotográfica? Ou a sensação de pertencimento ao grupo,
gerada pelo aparelho? Ou ainda o status: eu tenho um aparelho, sou legal.
Quanto mais caro meu celular, mais legal eu sou? Ou quem sabe a intimidade com
aparelhos dessa espécie, essa geração passou mais tempo com um celular do que,
provavelmente, com seus pais. Será isso?”
Eis que de repente, atordoado por suas meditações e sem
pensar nas conseqüências de suas palavras, o mestre profere a infausta
afirmação: - Eu não tenho um aparelho celular.
Breves segundos de silêncio. Os alunos se entreolham,
apavorados, terrificados. Surge um ânsia instantânea, coletiva: “Como?? Como pode?”, pensam, uniformemente.
A quem não presenciou a cena é praticamente impossível
descrever o que se sucedeu. Revolta, gritos, caos, desordem, indignação.
Harmonicamente, pensavam: “como pôde a natureza ter engendrado ser tão
excêntrico? Não há mais limites para a extravagância humana? Como ousa, uma
pessoa, um ser humano de carne e osso, sem celular? Impossível.”
E o professor, pego de surpresa, tenta se explicar. Utiliza seus melhores argumentos, mas ninguém o ouve. Vocifera, esbraveja,
e quanto mais tenta, mais ensandecida fica a turba. Por fim, bate o sinal.
A aula termina. Sai da sala aliviado por ainda estar vivo.
No caminho para casa, os rostos de repulsa voltavam-lhe à
mente, a todo instante. Não conseguia esquecê-los. Brota-lhe, de repente, uma estranha ideia: escrever os
seus argumentos contrários ao celular e lê-los para a turma na próxima aula.
“Vou mostrar para essa molecada que a vida é muito mais que um aparelho
eletrônico”, pensou.
Assim, elaborou uma lista com suas razões, intitulada: 27
motivos para não se ter um celular. Fez o melhor que pôde, utilizando a
linguagem dos jovens para que o entendessem. E na semana seguinte, quando
retornou àquela turma, retomou a discussão. Sabichão, sacou de sua pasta seu
digníssimo texto, que leu em voz alta para os jovens.
27 motivos para não se ter um celular.
1º Você não gastará dinheiro com um aparelho. E não gastará dinheiro
com outro aparelho daqui há alguns meses, quando o seu atual quebrar ou se
tornar ultrapassado.
2º Você não gastará dinheiro com planos mirabolantes das empresas
telefônicas.
3º Você não contribuirá com as empresas telefônicas, claramente
desonestas, que prometem planos mirabolantes e não cumprem.
4º Você não ficará nervoso após horas e horas de espera tentando
cancelar seus planos mirabolantes.
5º Você não terá que desligar o seu celular ao entrar no cinema,
teatro, etc..
6º Você não atrapalhará as pessoas no cinema, teatro, etc, por ter se
esquecido de desligar o seu celular.
7º Você não atrapalhará a aula atendendo aquela ligação
“importantíssima”.
8º Você não incomodará o sossego de ninguém no transporte público por
discutir a relação com seu/sua amado(a) via celular.
9º Você não incomodará ninguém no transporte público, ou mesmo em
outros espaços públicos, ouvindo no alto falante de seu celular aquela música
que só você acha legal.
10º Nunca ninguém ficará zangado com você pelo fato de você ter
esquecido o celular desligado.
11º Você nunca precisará procurar um lugar para recarregar a bateria
do seu celular.
12º Você não precisará procurar um lugar para por crédito no seu celular,
nem deixará as pessoas da fila da lotérica, da farmácia, da PQP nervosas pela
demora na compra dos benditos créditos de celular.
13º Você nunca colocará a sua vida, e as de outras pessoas, em risco,
ao dirigir falando no celular, ou dirigir escrevendo mensagens SMS.
14º Você nunca ficará preocupado se alguém “está de olho” no seu
celular “novinho”.
15º Você nunca ficará preocupado em perder seu celular “novinho”.
16º Você não sofrerá assaltos por conta do seu celular. Sua vida não
estará em risco por conta desse ridículo aparelho eletrônico.
17º Você nunca ficará desesperado se o seu aparelho for furtado ou
perdido.
18º Você nunca ficará desesperado por ter perdido TODOS os milhares de
contatos da agenda do seu celular roubado ou perdido.
19º Você nunca vai pisar num cocô de cachorro porque estava andando
enquanto escrevia uma mensagem SMS (e
nenhum outro acidente idiota deste tipo, vai dizer que não acontece?).
20º Você não ficará ansioso se a bateria do seu celular estiver
acabando e você estiver esperando uma ligação importante.
21º Você nunca se julgará um “idiota” por ter ido viajar e ter
esquecido o carregador da bateria do seu celular.
22º Você não estará sempre “disponível”, isto é, ligado o tempo todo
ao resto do mundo (privacidade é bom de vez em quando).
23º Você nunca se sentirá um “otário” por ter comprado um aparelho que
não funciona conforme o prometido. Nem vai perder tempo tentando aprender a
utilizar aquelas funções mirabolantes do seu celular “novinho”.
24º Você nunca irá usar seu celular para tirar aquelas fotos ridículas
na frente do espelho, em que se faz biquinho, ou qualquer outro tipo de pose
idiota, que só você acha sexy.
25º Você
nunca irá deixar a pessoa com quem você está conversando te esperando enquanto
você responde aquele SMS “importantíssimo”.
26º Você nunca deixará de prestar atenção em algo importante por estar
com os olhos grudados no seu celular.
27º Você nunca se viciará no seu celular, ou nas tranqueiras coloridas
e barulhentas que ele pode te proporcionar. Enfim, você terá mais tempo para
viver.
Ao final da leitura, a maioria dos alunos estava com cara de tédio.
Alguns bocejavam, outros checavam seu celular. Outros olhavam para o vazio,
pensando em como seria estar em casa, desfrutando de sua cama e de seu travesseiro.
Apenas uma garota, uma quieta porém perspicaz menina da primeira fila, olhava
com astúcia para o mestre.
A princípio, o professor-filósofo não entendeu a reação da classe. Tinha
certeza que seu texto criaria novo tumulto, revoltas ainda mais tempestuosas.
Ele até tentou estimular a turma, provocando-os com novos questionamentos sobre
o assunto. Hoje estava pronto para briga, tinha certeza que ninguém o venceria.
Em vão. “Venceu” por W.O..
No caminho de volta para casa, pensando em toda a
situação, concluiu: “essa é a geração do tédio, e não do celular. Não se motivam por ideias, não se apegam racionalmente às coisas, são basicamente seres
pulsionais. Vão da euforia à indiferença, da inação à hiperatividade
velozmente. Mas nada lhes pertence. Surpreendem-se com o diferente, é verdade,
revoltam-se até. Mas é tudo instintivo, tudo efêmero e descartável. Só o tédio lhes é visceral.” Então, lembrou do rosto da garota quieta e perspicaz. Seu olhar
tinha um brilho de inconformidade, uma luz que irradiava discórdia, ainda que
contidamente. Por fim, o professor-filósofo sorriu. “Nem tudo está perdido”.
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