Qual é o sentido disso?
O barulho irritante do despertador acorda o
professor-filósofo para mais um dia de trabalho. Trágica rotina.
Professores-filósofos detestam acordar cedo. Daria tudo para continuar dormindo
até às dez, quando os raios solares penetrariam as frestas da janela de seu
quarto, acordando-o naturalmente.
Mas levanta-se, morosamente, cambaleante, e sem pensar. Veste-se e
abandona o quarto o mais rápido possível, para não ceder à tentação do sono.
Come sem vontade, fazendo enorme esforço mental para resgatar as agradáveis
imagens do sonho há pouco interrompido. Tenta juntar os fragmentos, atribuir
algum sentido àquelas visões estilhaçadas de suas experiências passadas. Acaba
distraindo-se com a sensação arrebatadora de sono. Deixa a casa.
Vai caminhando ao trabalho, refletindo sobre a existência, seus projetos
e conquistas. Em sua mente toca uma canção antiga, acolhedora e melancólica,
que dá tom ao seu estado de ânimo. - Only the lonely, only the lonely! -
repete seguidamente. Aperta o passo
para não se atrasar.
No portão da escola, encontra a coordenadora-pedagógica. Sua voz rouca
grita aos alunos: - Mais rápido, andem mais rápido que o portão vai fechar! -
Cumprimentam-se com certa afabilidade.
Na sala dos professores pega o seu material: diários, livros, giz. Fala
“bom dia” a alguns, ignora outros sem motivo, a não ser por sua timidez inata.
Olha ao redor, a sala é ampla, mas os professores estão espalhados, embora agrupados estranhamente, por idade, gênero e disciplina que lecionam. Conversam
sobre banalidades, como os acontecimentos do fim de semana, os resultados do
futebol, ou a entrevista da celebridade x no programa televisivo y.
Assoberbado, evita participar de conversas dessa natureza. “Que gente besta”,
pensa.
O seu caminhar em direção à sala de aula é atrapalhado por diversos
alunos que brincam, se batendo e se empurram, gritando e gargalhando. Isto traz
lembranças imediatas ao professor-filósofo, lembranças de seus tempos de
juventude. Acaba por considerar seus alunos exageradamente infantis.“Será que
quando eu era moleque eu era tão bobo assim e não sabia? Todo mundo já foi bobo
um dia. Mas eu não era bobo assim. Nem fudendo!”.
Na sala de aula, a rotina diária se repete. - Pessoal, atenção à chamada,
silêncio por favor. – A seguir, números ditos em voz alta misturam-se a demais
vozes que não cessam, bocas que não se calam, ruídos que não findam. “Há
sentido nessa merda? Por que continuar com isso? Não dá pra ser diferente”,
pensa, enquanto continua chamando os alunos e registrando a presença no diário.
Terminada a “chamada” a aula se inicia.
O plano de aula é o de entregar as provas corrigidas, mostrar quais as
respostas certas e porque os alunos erraram tantas questões. Pretende ainda
discutir mais aprofundadamente os resultados e orientá-los para que o
mesmo não se repita no futuro próximo.
Entretanto, tem consciência de que esse plano de aula não faz sentido. O motivo
principal: a prova foi aplicada há mais de um mês, e os alunos já não lembram
mais do texto, tampouco das questões. O professor justifica-se propondo um
problema matemático aos jovens: - Tenho mais de quatrocentos alunos. Levo cerca
de cinco minutos para corrigir cada prova. Qual é o tempo total, em horas, para
a correção?
Alguns quebram a cabeça, utilizando seus idolatrados aparelhos
eletrônicos inúteis para resolver a questão. O professor-filósofo zomba deles:
-Vocês são escravos de objetos fúteis. É a mente que opera os instrumentos e
não o seu contrário. Primeiro desenvolvam suas mentes. Depois, utilizem seus
instrumentos. - O professor-filósofo tem certeza de que os jovens não
entenderam sua crítica, julgando-a como um simples sermão, ou pior, reles
rabugice de velho. Mas dá de ombros.
Por fim, chegam ao resultado: cerca de trinta e três horas foram
necessárias para a correção dessas provas. O professor termina seu argumento,
com mais uma equação matemática: - Considerando que o governo me paga apenas
duas horas semanais para eu trabalhar em casa, em quantas semanas eu deveria
ter que devolver essas provas corrigidas para vocês, sem ter de trabalhar de
graça? – Agora as respostas vêm com maior rapidez. O professor-filósofo
resmunga mais algumas palavras contra o sistema de ensino. Mas logo para,
quando percebe que os alunos não estão interessados em saber disso.
A prova aplicada há um mês consistia em cinco questões de interpretação
sobre trecho da Ética a Nicômaco de Aristóteles. O texto fora lido e relido em
sala de aula, interpretado minuciosamente em trabalho coletivo entre os jovens
e o professor-filósofo, e para surpresa do mestre, os resultados da avaliação demonstram
que o texto não havia sido compreendido pela maioria dos alunos. Cerca de
quarenta por cento dos alunos tiveram notas abaixo da média. Cinqüenta por
cento tiveram notas iguais ou um ponto superior à média, que é cinco. E somente
dez por cento, isto é, quatro alunos, tiveram notas consideradas satisfatórias
pelo professor.
Enquanto mostrava quais eram as respostas corretas para as questões, e
tentava encontrar os motivos para tantos erros, sentia no olhar dos jovens
desdém, desprezo, uma certa arrogância. “Isso não faz sentido”, pensava. “O que
faz então? Nada faz sentido a esses garotos. A não ser celulares e outras
quinquilharias eletrônicas, a aparência física, o futebol e a música a outras.
E de nada adianta desconstruir esse jeito de ser: adolescentes dificilmente
admiram-se com a consciência de sua idiotice”.
Apesar do desinteresse pelas “respostas certas”, os jovens esperam
avidamente pelas provas corrigidas. Não porque pretendiam reavaliar o que não
aprenderam, mas pela expectativa de saber a sua nota, valor numérico gravado
geralmente no canto superior direito da folha de prova com caneta esferográfica
vermelha. Por alguns segundos o professor tenta definir mentalmente o conceito
de “nota”: “símbolo, alegoria, metáfora, que designa a ‘virtude’ de um aluno em
desempenhar uma tarefa por intermédio de um valor numérico dado dentro de uma
escala de zero a dez”.
O professor-filósofo pensa na ineficácia desse método, pois estimula tão
somente a valoração por intermédio de escalas numéricas. “Desse jeito as
pessoas têm um valor, de acordo com suas habilidades em desempenhar tarefas. Em
última análise, esse sistema não se difere do sistema capitalista, pois acaba
por determinar que os seres humanos diferenciam-se de acordo com o valor de
mercado que têm. Produzimos objetos para nosso consumo, mas no fundo, também
somos objetos de consumo, etiquetados com um preço, o que alguns chamam de
salário”.
Todo esse devaneio se dá durante o processo mecânico e interminável de
explicar os argumentos de Aristóteles presentes no texto. Tudo se repete na
próxima aula, e de novo, nas demais aulas do dia, seis no total. Pouco muda
entre uma turma e outra. Alguns alunos são mais simpáticos e falastrões, outros
menos. Mas a dinâmica, as relações, o desprezo pelo conhecimento e ânsia pelos
resultados é a mesma.
O professor-filósofo deixa a escola extenuado. Ao
pisar fora do edifício, o sono retorna, de imediato. A fome, até então
adormecida, acorda para revirar-lhe o estômago. Only the lonely volta a
tocar em sua mente, e uma questão insiste em atormentar-lhe: “faz sentido
continuar com isso?”.
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