terça-feira, 7 de maio de 2013

Qual é o sentido disso?


Qual é o sentido disso?


O barulho irritante do despertador acorda o professor-filósofo para mais um dia de trabalho. Trágica rotina. Professores-filósofos detestam acordar cedo. Daria tudo para continuar dormindo até às dez, quando os raios solares penetrariam as frestas da janela de seu quarto, acordando-o naturalmente.
Mas levanta-se, morosamente, cambaleante, e sem pensar. Veste-se e abandona o quarto o mais rápido possível, para não ceder à tentação do sono. Come sem vontade, fazendo enorme esforço mental para resgatar as agradáveis imagens do sonho há pouco interrompido. Tenta juntar os fragmentos, atribuir algum sentido àquelas visões estilhaçadas de suas experiências passadas. Acaba distraindo-se com a sensação arrebatadora de sono. Deixa a casa. 
Vai caminhando ao trabalho, refletindo sobre a existência, seus projetos e conquistas. Em sua mente toca uma canção antiga, acolhedora e melancólica, que dá tom ao seu estado de ânimo. - Only the lonely, only the lonely! - repete seguidamente.  Aperta o passo para não se atrasar.
No portão da escola, encontra a coordenadora-pedagógica. Sua voz rouca grita aos alunos: - Mais rápido, andem mais rápido que o portão vai fechar! - Cumprimentam-se com certa afabilidade.
Na sala dos professores pega o seu material: diários, livros, giz. Fala “bom dia” a alguns, ignora outros sem motivo, a não ser por sua timidez inata.
Olha ao redor, a sala é ampla, mas os professores estão espalhados, embora agrupados estranhamente, por idade, gênero e disciplina que lecionam. Conversam sobre banalidades, como os acontecimentos do fim de semana, os resultados do futebol, ou a entrevista da celebridade x no programa televisivo y. Assoberbado, evita participar de conversas dessa natureza. “Que gente besta”, pensa.
O seu caminhar em direção à sala de aula é atrapalhado por diversos alunos que brincam, se batendo e se empurram, gritando e gargalhando. Isto traz lembranças imediatas ao professor-filósofo, lembranças de seus tempos de juventude. Acaba por considerar seus alunos exageradamente infantis.“Será que quando eu era moleque eu era tão bobo assim e não sabia? Todo mundo já foi bobo um dia. Mas eu não era bobo assim. Nem fudendo!”.
Na sala de aula, a rotina diária se repete. - Pessoal, atenção à chamada, silêncio por favor. – A seguir, números ditos em voz alta misturam-se a demais vozes que não cessam, bocas que não se calam, ruídos que não findam. “Há sentido nessa merda? Por que continuar com isso? Não dá pra ser diferente”, pensa, enquanto continua chamando os alunos e registrando a presença no diário. Terminada a “chamada” a aula se inicia.
O plano de aula é o de entregar as provas corrigidas, mostrar quais as respostas certas e porque os alunos erraram tantas questões. Pretende ainda discutir mais aprofundadamente os resultados e orientá-los para que o mesmo não se repita no futuro próximo.
Entretanto, tem consciência de que esse plano de aula não faz sentido. O motivo principal: a prova foi aplicada há mais de um mês, e os alunos já não lembram mais do texto, tampouco das questões. O professor justifica-se propondo um problema matemático aos jovens: - Tenho mais de quatrocentos alunos. Levo cerca de cinco minutos para corrigir cada prova. Qual é o tempo total, em horas, para a correção?
Alguns quebram a cabeça, utilizando seus idolatrados aparelhos eletrônicos inúteis para resolver a questão. O professor-filósofo zomba deles: -Vocês são escravos de objetos fúteis. É a mente que opera os instrumentos e não o seu contrário. Primeiro desenvolvam suas mentes. Depois, utilizem seus instrumentos. - O professor-filósofo tem certeza de que os jovens não entenderam sua crítica, julgando-a como um simples sermão, ou pior, reles rabugice de velho. Mas dá de ombros.
Por fim, chegam ao resultado: cerca de trinta e três horas foram necessárias para a correção dessas provas. O professor termina seu argumento, com mais uma equação matemática: - Considerando que o governo me paga apenas duas horas semanais para eu trabalhar em casa, em quantas semanas eu deveria ter que devolver essas provas corrigidas para vocês, sem ter de trabalhar de graça? – Agora as respostas vêm com maior rapidez. O professor-filósofo resmunga mais algumas palavras contra o sistema de ensino. Mas logo para, quando percebe que os alunos não estão interessados em saber disso.
A prova aplicada há um mês consistia em cinco questões de interpretação sobre trecho da Ética a Nicômaco de Aristóteles. O texto fora lido e relido em sala de aula, interpretado minuciosamente em trabalho coletivo entre os jovens e o professor-filósofo, e para surpresa do mestre, os resultados da avaliação demonstram que o texto não havia sido compreendido pela maioria dos alunos. Cerca de quarenta por cento dos alunos tiveram notas abaixo da média. Cinqüenta por cento tiveram notas iguais ou um ponto superior à média, que é cinco. E somente dez por cento, isto é, quatro alunos, tiveram notas consideradas satisfatórias pelo professor.
Enquanto mostrava quais eram as respostas corretas para as questões, e tentava encontrar os motivos para tantos erros, sentia no olhar dos jovens desdém, desprezo, uma certa arrogância. “Isso não faz sentido”, pensava. “O que faz então? Nada faz sentido a esses garotos. A não ser celulares e outras quinquilharias eletrônicas, a aparência física, o futebol e a música a outras. E de nada adianta desconstruir esse jeito de ser: adolescentes dificilmente admiram-se com a consciência de sua idiotice”.
Apesar do desinteresse pelas “respostas certas”, os jovens esperam avidamente pelas provas corrigidas. Não porque pretendiam reavaliar o que não aprenderam, mas pela expectativa de saber a sua nota, valor numérico gravado geralmente no canto superior direito da folha de prova com caneta esferográfica vermelha. Por alguns segundos o professor tenta definir mentalmente o conceito de “nota”: “símbolo, alegoria, metáfora, que designa a ‘virtude’ de um aluno em desempenhar uma tarefa por intermédio de um valor numérico dado dentro de uma escala de zero a dez”.
O professor-filósofo pensa na ineficácia desse método, pois estimula tão somente a valoração por intermédio de escalas numéricas. “Desse jeito as pessoas têm um valor, de acordo com suas habilidades em desempenhar tarefas. Em última análise, esse sistema não se difere do sistema capitalista, pois acaba por determinar que os seres humanos diferenciam-se de acordo com o valor de mercado que têm. Produzimos objetos para nosso consumo, mas no fundo, também somos objetos de consumo, etiquetados com um preço, o que alguns chamam de salário”.
Todo esse devaneio se dá durante o processo mecânico e interminável de explicar os argumentos de Aristóteles presentes no texto. Tudo se repete na próxima aula, e de novo, nas demais aulas do dia, seis no total. Pouco muda entre uma turma e outra. Alguns alunos são mais simpáticos e falastrões, outros menos. Mas a dinâmica, as relações, o desprezo pelo conhecimento e ânsia pelos resultados é a mesma.
O professor-filósofo deixa a escola extenuado. Ao pisar fora do edifício, o sono retorna, de imediato. A fome, até então adormecida, acorda para revirar-lhe o estômago. Only the lonely volta a tocar em sua mente, e uma questão insiste em atormentar-lhe: “faz sentido continuar com isso?”.

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