Seu Seleno
O assunto mais recorrente na sala dos professores, durante os intervalos principalmente, é o comportamento dos alunos. Fala-se sobre indisciplina, falta de educação e desinteresse discentes. Culpabiliza-se, geralmente, a “família”, instituição julgada como entidade metafísica, universal, onisciente e onipotente. Atribui-se a ela, ou melhor, à “recente” perda de seus poderes divinos, o fracasso dos alunos, tanto do ponto de vista pedagógico, quanto do comportamental. Contudo esta não é a única explicação. Também os alunos, seres dissimulados, senhores de si, indivíduos maduros e responsáveis, que estão na escola sei lá fazendo o que, diante de tal nível de desenvolvimento, são responsabilizados pelo seu fracasso. Em resumo, a lógica do sucesso e do fracasso impera no árido solo da pedagogia brasileira.
Mas este não era o caso da Escola Estadual Prof. Judas Iscariotes de Oliveira. Pelo menos não nas últimas semanas. A recente chegada de seu Seleno, funcionário da Diretoria de Ensino designado para a função de Agente de Organização Escolar, mexia com os instintos especulativos do corpo docente. Os motivos: seu Seleno não tinha “perfil” para trabalhar como inspetor de alunos.
Chegaram a essa conclusão logo em sua primeira semana de trabalho. Nos três primeiros dias, seu Seleno chegou atrasado. Deveria apresentar-se na escola às 6:40, arrumar-se rapidamente, e abrir o portão para a entrada dos alunos, às 6:50. No primeiro dia chegou às 7 horas, atrasando a entrada. No segundo dia, conseguiu chegar às 6:50, o que também descumpria as ordens da diretora. No terceiro, voltou a chegar às 7 horas.
O assunto mais recorrente na sala dos professores, durante os intervalos principalmente, é o comportamento dos alunos. Fala-se sobre indisciplina, falta de educação e desinteresse discentes. Culpabiliza-se, geralmente, a “família”, instituição julgada como entidade metafísica, universal, onisciente e onipotente. Atribui-se a ela, ou melhor, à “recente” perda de seus poderes divinos, o fracasso dos alunos, tanto do ponto de vista pedagógico, quanto do comportamental. Contudo esta não é a única explicação. Também os alunos, seres dissimulados, senhores de si, indivíduos maduros e responsáveis, que estão na escola sei lá fazendo o que, diante de tal nível de desenvolvimento, são responsabilizados pelo seu fracasso. Em resumo, a lógica do sucesso e do fracasso impera no árido solo da pedagogia brasileira.
Mas este não era o caso da Escola Estadual Prof. Judas Iscariotes de Oliveira. Pelo menos não nas últimas semanas. A recente chegada de seu Seleno, funcionário da Diretoria de Ensino designado para a função de Agente de Organização Escolar, mexia com os instintos especulativos do corpo docente. Os motivos: seu Seleno não tinha “perfil” para trabalhar como inspetor de alunos.
Chegaram a essa conclusão logo em sua primeira semana de trabalho. Nos três primeiros dias, seu Seleno chegou atrasado. Deveria apresentar-se na escola às 6:40, arrumar-se rapidamente, e abrir o portão para a entrada dos alunos, às 6:50. No primeiro dia chegou às 7 horas, atrasando a entrada. No segundo dia, conseguiu chegar às 6:50, o que também descumpria as ordens da diretora. No terceiro, voltou a chegar às 7 horas.
A diretora, insatisfeita com a situação, sabia que se seu Seleno não
abrisse o portão no horário, os alunos entrariam atrasados, o que prejudicaria
a primeira aula da manhã. A escola não dispunha de outro funcionário para
cumprir essa função, seu Seleno vinha, especificamente, para ficar no lugar de
dona Aurora, antiga inspetora que acabara de se aposentar. Assim, a diretora
chamou o recém-chegado para uma séria conversa. Após a exposição dos fatos e de suas
conseqüências, que seu Seleno mal ouviu, pois pensava no jogo de futebol que
ocorreria naquela quarta, à noite, a fina senhora exclamou: – Portanto, se você
voltar a se atrasar, eu vou até a Diretoria de Ensino pedir a cessação da sua
designação! – A rispidez da voz e a fúria no olhar da diretora trouxeram seu
Seleno de volta à realidade. Não se explicou, apenas respondeu: - Dona
Diretora, isso não vai voltar a acontecer!
Seu Seleno era lento no andar, seus pés sexagenários doíam quando
caminhava, atrapalhando a agilidade que outrora tivera. Gabava-se, inclusive,
de ter sido “jogador” de um clube do interior de São Paulo na juventude. Um
“beque dos bons” dizia, que teria até mesmo enfrentado Pelé num jogo válido
pelo Campeonato Paulista, no início dos anos 70. Além da dor, e das míticas
histórias contadas ao colegas de bar, havia sua condição financeira precária e
o descaso consigo próprio. Ambos impediam que o homem procurasse um médico para
examiná-lo. Morava só, numa modesta casinha na periferia de São
Paulo, há cerca de três quilômetros da escola em questão. Não tinha amigos,
apenas “conhecidos” na região.
Decidiu que na manhã seguinte
pegaria um ônibus ao invés de caminhar, mesmo que isso ocasionasse importante
diferença em seus rendimentos mensais. Mas ponderou: “melhor ir de ônibus e
continuar trabalhando, do que perder o trabalho e ficar mais fodido ainda de
grana. É, melhor mesmo...”. Por fim, passou a chegar no horário, atrasando-se
mais raramente.
Os atrasos não eram os únicos obstáculos de seu Seleno na função. Todos
consideravam-no figura repugnante. Primeiro pelo aspecto físico: um homem de
sessenta e poucos anos, banguela, careca, de olhos ligeiramente esbugalhados e
volumosa barriga. A isso, acrescente-se roupas sujas, fedidas e rasgadas, como
uma camisa do Corinthians comprada provavelmente num camelô na década de 90, e
o odor quase natural de cachaça que exalava, gerado não só pelas doses do
desjejum, como também pelos grandes goles ingeridos à noite, antes de cair no
sono. A idade, o cansaço e sobretudo as noites de pouco sono davam-lhe grandes
olheiras, que contribuíam para sua feiúra.
Além do aspecto, também julgavam-lhe mal pelo modo peculiar no trato com
as pessoas. Por exemplo, aos alunos que dele zombavam, respondia com - Vai pra
puta que pariu, filho de uma quenga véia! – A frase, repetida incansavelmente
com voz ligeiramente rouca e vacilante, revelava um estado crescente de
senilidade, o que divertia os alunos mais sádicos. Estes, engajavam-se em criar
novos apelidos para o velho. – Esse é da hora, rárárá, o véio doidera vai ficar
muito puto!
Tratava distintamente professores e professoras. Com os homens, esforçava-se para ser amigável, contando-lhes piadas e “causos” antigos. Com as professoras, era galante e gentil, - É assim que a gente tratava as mulheres antigamente – contava aos colegas do sexo masculino. Por vezes, e preferencialmente às professoras mais velhas, soltava alguns elogios, que eram imediatamente rechaçados com olhares de reprovação, “Se toca, velho fedido”, pensavam algumas.
Tratava distintamente professores e professoras. Com os homens, esforçava-se para ser amigável, contando-lhes piadas e “causos” antigos. Com as professoras, era galante e gentil, - É assim que a gente tratava as mulheres antigamente – contava aos colegas do sexo masculino. Por vezes, e preferencialmente às professoras mais velhas, soltava alguns elogios, que eram imediatamente rechaçados com olhares de reprovação, “Se toca, velho fedido”, pensavam algumas.
Mas seu Seleno não tinha
intenção de amizade, amor ou sexo. Seguia um protocolo de educação básica que
aprendera há algumas dezenas de anos. A escolha pelas mais velhas, por exemplo,
baseava-se na crença de que elas entenderiam este protocolo. Tinha uma mente
antiga, valores e costumes antigos.
Não se incomodava com os
juízos negativos dos colegas de trabalho. A propósito, fechara-se de tal modo
para essa espécie de crítica que elas simplesmente pareciam não existir. Era,
por esse e outros motivos, ser extremamente alegre, sorridente. Sempre a
cantarolar melodias de Nelson Gonçalves e Ataulfo Alves. Divertia a criançada
da escola dançando comicamente enquanto entoava as canções. Não partilhava
daquilo que costumeiramente chamamos de “bom senso”, ou ainda, “senso de
ridículo”. Há tempos abandonou a capacidade de se auto-envergonhar, conquista
potencializada pelo alcoolismo.
Como dito acima,
transformou-o em pessoa mais comentada na sala dos professores, durante o
intervalo. As professoras, em especial, riam de seu jeito extravagante,
deploravam seu fedor, suas roupas sujas e rasgadas, reclamavam de seus
galanteios e dos xingamentos proferidos aos alunos. Especulavam se não tinha
esposa, se morava sozinho, se tinha parentes próximos, enfim, algo que se possa
chamar de família. - Como uma pessoa chega a tal estágio? – Indaga uma. –
Excesso de pinga – responde outra.
Os professores são mais
complacentes. Há alguns que até simpatizam com seu Seleno, mas não manifestam
publicamente esse afeto. Comentam suas piadas, seus jargões, seus
“causos”. Chegaram inclusive a
pesquisar nos sites futebolísticos da internet, se seu Seleno fora realmente
jogador de futebol. Nada encontraram.
O que ninguém sabe, ou
desconfia, é que Seleno foi casado, e teve um filha, falecida aos 10 anos,
vítima de um tumor no cérebro. A perda da garota, considerada por tempos, pelo
pai, alegria e razão de sua vida, deixou uma marca incurável em sua alma.
Tentou afogar essa perda com o álcool. Nada feito. Perdeu a esposa, sucessivos
empregos, a dignidade. Por anos, viveu nas ruas, a esmo, perambulando. Tateava
um novo sentido para sua mal-tratada existência, mas esbarrava sempre na
memória da filha perdida. Abandonado pelos amigos, pelos poucos parentes
próximos, seu Seleno passou a mendigar, ou a fazer serviços braçais em troca de
cachaça. Pouco comia. Sempre se embriagava. Mas a filha morta nunca voltava.
Por fim, entendeu que a morte é eterna.
Aos poucos e muito
lentamente, se refez. Tijolo por tijolo, construiu uma poderosa muralha mental
contra tudo que lhe era nocivo. Nada mais o afetava, a não ser as crianças, que
de um modo geral, encarnavam a figura da filha. Nunca foi capaz de se
imunizar contra os choros e os sorrisos, os insultos e elogios, as tristezas e
alegrias das crianças. Através delas, sentia-se ligado à querida filha perdida.
Seu Seleno se reergueu.
Demorou, mas acabou por encontrar paz interior e a vontade de seguir a vida.
Decidiu que até o fim trabalharia em escolas, para estar sempre próximo às crianças. Conseguiu trabalho numa Diretoria de Ensino, contratado como ajudante
de serviços gerais. Prestava serviços de manutenção dentro das escolas. Durante
alguns anos, desempenhou bem a função. Até que prestou concurso para agente de
organização escolar. Ficou mal-classificado, mas acabou sendo chamado, devido
ao excesso de vagas e à rotatividade das pessoas no cargo, talvez devido à
natureza do trabalho (vigiar os alunos) e ao salário miserável.
Seu Seleno passou por
diversas escolas, mas seu temperamento desleixado não o permitia ficar por
muito tempo em nenhuma delas. As pessoas se irritavam, e ele era “devolvido” para a
Diretoria de Ensino, que o empurrava para alguma outra escola que reclamava por
falta de funcionários, fato bastante comum nas escolas paulistas. Acabou
passando um tempo mais prolongado nessa escola, pois, ainda que fosse
desmazelado, cumpria sua função.
Nunca esqueceu sua filha, logicamente, mas voltou a
ser o espírito alegre de tempos antigos. E apesar dos pesares, é possivelmente
a pessoa mais feliz com seu trabalho lá. O baixo salário não é
tão relevante. E ao contrário dos professores, dos demais funcionários da
escola, da direção e até mesmo dos próprios alunos, sente prazer infindável em contemplar
o sorriso das crianças, que, como pensa, é “a coisa mais pura e bonita do
universo”. É o que lhe vale.
Sensacional, Dr! Grande idéia, grande texto, grande blog!
ResponderExcluirImpressionante a capacidade do autor em unir nesta crônica o contexto da situação das Escolas e o o particular. Todos pontos se cruzam e fundamentam a reflexão. Parabéns.
ResponderExcluirPoxa fiquei de ler esses contos a alguns anos e com esse aqui eu vejo o q eu quase perdi kk gostei mt mesmo professor
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